Sunday, 25 April 2010

Feira de Filhotes



Toda o final de semana numa loja de ração perto de si....

Em Boa Hora



Não que eu tenha vindo para o Brasil a banhos... Não que eu não estivesse já avisado para o frio outonal do planalto Curitibano. Aqui estamos a mil metros de altitude e a temperatura é muitas vezes 10 graus abaixo da das zonas ao nível do mar, mesmo as que ficam mais a Sul. Não que eu não soubesse já dos caprichos do clima desta região. Mas custou encarar. Depois de um fim de semana a derreter, felizmente na praia de Matinhos, e de um feriado de quarta-feira passado na água gelada de uma nascente aqui em Curitiba, na quinta-feira o céu decidiu desabar sobre a cidade. E ainda não parou. Nas primeiras horas ainda com tempo quente. Mas entretanto a temperatura desceu em queda livre e estou agora mais frio do que Londres... Mas, pensando bem, veio em boa hora esta oportunidade para ficar na minha, abrigado, sossegado, sem ceder a tentações cervejísticas, cachacísticas ou musicais.
"Eu não quero sair, hoje eu vou ficar queto, não adianta insistir, eu não vou no boteco..." É melhor parar de cantar pois sempre que esta música me vem à cabeça, acabo a cantá-la na rua. É como a famosa "saideira". "Garçon, a saideira, por favor". A última cerveja antes de ir embora, acaba sempre por ser uma de muitas saideiras, enquanto as conversas se prolongam junto aos cascos alinhados na mesa.
Mas esta chuva torna tudo mais definitivo. Por isso vou aproveitar para adiantar um trabalho que me comprometi a fazer em Londres e que tenho carregado às costas sem o aligeirar durante estas semanas.
Hoje apenas tive de sair para encontrar a realizadora de um filme de ficção sobre catadores de papelão que estreou no final do ano passado. Descobri o seu contacto graças ao facebook, marcámos uma hora para hoje e tive mesmo de comparecer pois a sua agenda é muito complicada. E em boa hora o fiz, pois tivemos uma conversa muito interessante e muito valiosa para a minha pesquisa.
A minha outra distracção, para além da simpatia dos meus anfitriões tem sido a leitura, a princípio perra mas compensadora, de um livro de contos de Guimarães Rosa. Depois de mil vezes recomendado - pelo Aécio, pelo Chico Buarque, pelo professor Porto-Gonçalves, pela Fabiana - tive mesmo de encarar. E em boa hora o fiz, já que, para além das muitas pérolas de conhecimento profundo de uma realidade distante, da cultura rural do Brasil, da forma poética como é reproduzido o linguajar da gente que conhece o corpo da terra pelos seus sinais (como dizia o Carlos Tê), descobri que o estilo Mia Couto não o é. Sem desprimor pelo seu talento e pela sua capacidade de contar histórias, que é inigualável em dois dos seus livros, a verdade é que Mia Couto decalcou de forma bastante próxima o estilo deste escritor brasileiro falecido em 1967 com 59 anos. Quando acabar este vou encarar o Grande Sertão Veredas. Mas por agora, de volta ao meu estudo da produção siderúrgica brasileira... Com sol e cravos vermelhos na cabeça.

Museu do Lixo

Saturday, 10 April 2010

Saberes e Sabores

Chegou ao fim a minha segunda semana em Curitiba. Se a primeira foi de ambientação física à cidade, ao centro e a duas zonas da periferia onde fiquei hospedado, esta teve um forte componente académico.
Foi a semana de abertura dos programas de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná. O programa existe há pouco mais de vinte anos, começou por ser só de doutoramento e inaugura neste ano a primeira turma de mestrado. Neste aspecto, é um caso insólito na Universidade brasileira. É-o também na sua condição interdisciplinar e na sua independência de qualquer departamento. Desenrola-se no sector de ciências agrárias, entre animais e estufas, mas os docentes vêem de vários departamentos, em especial das ciências sociais e naturais.
Estou inscrito no programa como aluno ‘sanduíche’, que é a formula oficial brasileira para esquemas de frequência de um aluno em outra universidade por um período intermédio.
Um dos momentos altos da semana foi, sem dúvida, a palestra de Carlos Walter Gonçalves-Porto, autor de um livro intitulado ‘A Globalização da Natureza, A Natureza da Globalização', uma das melhores a que assisti em Universidades. O seu estilo falador e empático lembrou-me o meu amigo Hugo nos seus momentos mais inspirados. Em especial quando sempre após uma observação mais provocante, olhava para alguém na plateia por sobre os óculos com um sorriso maroto. Também quando no fim da palestra, para reforçar uma ideia a que recorreu por diversas vezes, da semelhança entre as palavras saber e sabor, abriu a boca e fez aquele gesto de colocar o indicador no meio da língua olhando provocadoramente para a audiência. Provocação foi o mote da palestra - como ele disse pro-vocare quer dizer despertar outras vozes. Como por exemplo quando, a propósito dos debates entre inter-, multi-, pluri- e a– disciplinaridade comentou que essa é uma discussão de brancos. Aproveitando o desconforto que a abordagem da questão racial provoca por aqui, rematou ironicamente, O Brasil não é um pais racista, só mesmo esta sala. Olhem em volta. De facto, aparte um negro que ele referiu pelo nome, toda a sala era composta por brancos. Nosso país é multi-étnico, só esta sala é que não é, não é isso? Tudo isto enquanto caminhava pelo corredor central da plateia, tocando em vários ombros e dirigindo-se pelo nome a várias pessoas que conhecia numa audiência de cerca de cem pessoas. No que concerne ao conteúdo, a fala foi muito próxima de uma palestra recente a que assisti de Boaventura de Sousa Santos na Universidade de Londres, chamada “Epistemologias do Sul”. Gonçalves-Porto citou-o diversas vezes e recorreu sempre a pontes com várias artes e saberes. Carlos Walter foi activista aop lado de Chico Mendes, assassinado pela sua defesa das populações que vivem da floresta. Falou de processos em que o homem matou e desmatou, porque os crimes ecológicos sempre envolvem crimes contra populações e suas culturas. O evento durou cerca de 3 horas e foi recheado de pontos interessantes, mas gostava de re-contar mais uma de suas histórias. Sobre um antropólogo alemão que visitou uma população indígena e pediu a dois dos seus elementos para aprender a sua língua. Os nativos disseram que teriam de falar com toda a tribo porque os processos de decisão são ali sempre colectivos. Acabaram por decidir que sim e lhe comunicar que a tribo ficou muito honrada pelo homem branco ter vindo para aprender e não para ensinar. Quando o antropólogo aprendeu a língua, deram-lhe oportunidade de juntar a tribo e fazer uma pergunta. Apenas havia uma condição: que a pergunta fosse verdadeira e não uma falsa pergunta. E o que se queria dizer com isso? A pergunta verdadeira é aquela para a qual o interrogante não sabe a resposta. A resposta será um processo colectivo de aprendizagem. A história serviu para contrastar este processo científico, de procura de conhecimento com a aprendizagem com que crescemos, em que nos habituamos a ter de responder individualmente a falsas perguntas. O professor elabora um teste com perguntas para as quais ja conhece a resposta e os alunos recolhem às suas carteiras, isolados, para tentar responder-lhes. O argumento qua a historia queria ilustrar refere-se às múltiplas formas pelas quais um modelo de conhecimento se impõe como único esmagando outras formas particulares de saber. Mas esta história fez-me pensar muito não só no sistema educativo que me criou e vou reproduzindo, como na minha própria pesquisa e nas entrevistas que faço.
Quanto ao trabalho de campo, para além dos contactos que efectuei durante a semana, a entrevista múltipla no Instituto Lixo e Cidadania ao técnico responsável pelo apoio às cooperativas de catadores e ao presidente de uma das maiores dessas cooperativas, foi imensamente interessante e informativo, uma conversa de mais de duas horas carregada de informações e pistas. Tenho passado bastante tempo a ouvir a gravação e a seguir as portas abertas.
Dados os compromissos na Universidade e o tempo passado em transportes públicos, por vezes deu ideia que o tempo corria mais depressa do que eu e se esgotava sem nenhum avanço. Mas agora que paro para fazer o balanço, sinto que foi uma semana até bem cheia. Um sanduíche bem composto. Houve conferências inspiradoras, conhecimentos importantes, avanços na recolha de pesquisas anteriores. Conheci um pouco mais da historia e sociedade local no magnifico Museu Paranaense. Foi também com imenso prazer que conheci finalmente em pessoa o professor Márcio de Oliveira, eminente sociólogo Paranense, amigo do meu amigo e colega Aécio que, por email, me havia dado ajuda inestimável na procura de uma relação institucional com a Federal. No encontro, para alem de ter ganho dois livros, pude ainda receber uma grande quantidade de informações sobre a cidade, o Estado e o Pais. Fiz ainda os meus primeiros dois treinos de capoeira e estreei-me nas pistas de forró. As minhas pernas estão claro bem doridas, mas a alma sente-se reinvigorada
Escrevo isto depois de uma outra experiência local, um prato tradicional chamado “Barreado, um estufado com musculo de boi desfiado, num molho com cominhos e outros temperos, arroz e umas fatias de banana a acompanhar. Muito saboroso.

Thursday, 8 April 2010

Tuesday, 6 April 2010

Probabilidades e Divindades

Bem dizia o VG: "No momento em que aterrares no Brasil, a tua probabilidade de morrer aumentará em 20%. Pelo menos." Não sei se o número era este. Na altura pareceu-me apenas uma tirada de bar, para responder à letra a algum comentário pseudo-dramático meu, tlvez envolvendo seguros de viagem e a minha condição de pai. Mas agora entendo o que ele quis dizer. Não que eu esteja morto. Ou que o cálculo de uma percentagem transformando perigos em riscos, tão ao gosto da epistemologia das seguradoras, faça algum sentido. Aqui recorre-se mais a divindades de toda a ordem e às mais diversas formas de as invocar e peticionar. Aliás, enquanto a convivência constante com o que aprendi a encarar como ameaças endurece a pele da maioria dos brasileiros, parece-me que os faz incrivelmente vulneráveis a seres do outro mundo.
Não sei se a profecia Viliana teve algum efeito inconsciente sobre a minha percepção. A verdade é que depois de 11 horas dentro de um avião que sobrevoou uma grande diagonal sobre o Atlântico, com alguns momentos de instabilidade e muitos momentos de oração dos meus companheiros de viagem, foi só depois de aterrar no Rio que comecei a sentir a fragilidade da existência aumentando em percentagem considerável. Começou pela viagem de taxi que me levou do Aeroporto até onde fiquei instalado. Era noite e o calor era quase insuportável. Eu ia preparado com uma série de estratégias para não ser enganado na tarifa. Só não ia preparado, e nem tinha como, para ser dirigido a uma velocidade louca, num carro velho, a querer despedir-se das suspensões, por um taxista que mal conseguia abrir os olhos e exalava uma nuvem de álcool à sua volta. As alturas em que me senti mais seguro durante essa viagem foram quando estivemos parados em filas de trânsito passando pelo complexo de favelas da Maré. Aí, disseram-me depois, os assaltos e tiroteios são frequentes. Acho que, mesmo que tivesse ouvido tiros, teria preferido que o carro estivesse parado.
À chegada ao meu destino, o peso de todas as advertências recebidas, caiu sobre mim. De tal forma que, se não fosse eu ter convencido o Serguei, que me recebeu, a acompanhar-me num rolé, corria sério risco de ficar em casa, refugiado do espectro ameaçador do movimento caótico da cidade. Na casa que nem era minha, mas sim do André, um amigo do VG, o qual eu não conhecia senão por email, que nem sequer estava em casa. Umas horas mais tarde ele e a Gabi, sua namorada, encontraram-nos. Estava eu sentado numa esplanada de um boteco ali vizinho, no Bairro da Lapa, eu e o seu companheiro de casa e mais umas quantas garrafas de cerveja vazias. Relembraram-nos do cheiro do esgoto que transbordava há horas pela tampa ao nosso lado, mas ficaram lá mais umas cervejas connosco. De calções e t-shirt, a suar, a beber e a fumar, a língua solta e os ouvidos em êxtase pela sorte de poder receber tantos saberes e paixões sobre um mundo completamente novo, rcordei o aviso do Pedro, sobre a melhor forma de enfrentar os perigos da cidade: "Relaxa!". Ou como dizem aqui, sem estresse. É certo que a informação é importante - 'Tem que ficar esperto'. Mas muitas vezes o medo pode trazer maior vulnerabilidade.
A verdade é que o VG tinha razão. Não só em me mandar para casa do André. Também em me avisar que a vida e a morte têm outro tipo de entendimento mútuo neste país. Agora em Curitiba, 15 dias depois de passar o equador, debaixo de um edredon e um cobertor, recebendo noticias dos mais de cem mortos nos rios que apareceram repentinamente ontem à noite nas ruas do Rio de Janeiro, entendo isso. Já não bastavam os motoristas loucos e as estradas em mau estado, a precaridade das instalações eléctricas, as doenças tropicais, as omnipresença das armas exibidas por qualquer segurança privado e potencialmente na posse de qualquer viciado em craque, ou cidadão cumpridor da lei (excepto da lei de porte de arma), a omnipresença de drogas fortes e baratas, a comida deliciosa, hiper-calorica e barata, a cerveja, a cachaça, os fumos de carros velhos, a falta de higiene, em especial nas casas de banho e saneamento, as cheias recorrentes... Já não bastava tudo isso, ainda vim encontrar em Curitiba, uma aranha que pode ser mortal, mas cuja mordida normalmente 'apenas' tem como efeito, a necrose dos tecidos e a amputação de um membro ou outro. A Aranha Marron tem no Paraná a sua maior disseminação. Parece que veio do Egipto e encontrou aqui condições ideais de clima e ausência de predadores. Agora vou dormr e espero que não me suba nenhuma para a cama. Elas não são agressivas mas estão armadas, E qualquer bicho armado, mesmo que só agindo em legitima defesa, é um perigo. Vou ver se há algum santo ou divindade para este efeito. E amanhã sacudirei os sapatos antes de os calçar.

Sunday, 4 April 2010

Gambiarra


Costumamos chamar a Portugal o país do desenrasque. Em relação aos nossos vizinhos europeus, caracterizamo-nos pela capacidade do improviso e acreditamos que ela é tão apurada que compensa a pouca propensão para o planeamento. Mas o desenrasque torna-se quase uma brincadeira escandinava quando comparado com a gambiarra brasileira. Em Potugal, gambiarra refere-se mais a uma instalação eléctrica mas, deste lado do charco, tem um significado mais abrangente.
Aqui no ‘novo mundo’ a escala de improviso é outra. A vida exige uma criatividade rotineira, um constante jogo de cintura ou, como se diz na capoeira, ginga.
Há a gambiarra tornada prática corrente. Os esquentadores de água, por exemplo, são instalações quase artísticas: um emaranhado de fios que liga o chuveiro, por cima, a um buraco na parede ou no tecto. No topo do chuveiro há uma resistência e por todo o lado os fios eléctricos convivem em harmonia próxima com a água (e um pouco pior com a fita isoladora que tendem a derreter).
Há também a forma como os corpos, mais as sacolas, as bolsas e os bebés que eles transportam, se adaptam à catraca. Gritando bem alto o som da palavra que o nomeia de cada vez que um cidadão paga a sua passagem no ónibus e atravessa a barreira da legalidade, o mais anti-ergonómico objecto da cena urbana brasileira, o torniquete dos autocarros, parece mais um instrumento de tortura. Aqui em Curitiba as dificuldades foram amenizadas. Em alguns pontos e linhas, a catraca e o cobrador - que sempre se senta em frente dela - foram transferidos para terra firme, tornando as tarefas de procurar dinheiro, dar e receber trocos e atravessar a estreita barreira de ferro, um pouco mais pacíficas. Ao pagar no ponto de ónibus, o passageiro evita ter de o fazer no embalo vertiginoso que os motoristas imprimem desde o momento em que as portas se fecham. A dureza das suspensões e das estradas só agrava a situação.
No Rio fiquei a saber que afinal os fornos micro-ondas são reparáveis. Por todo os lado se vêm lojas de reparação de electrodomésticos. Aqui não é mais barato deitar fora e comprar um novo. E há as demolidoras, que conheci em Curitiba: empresas que vendem objectos salvados das casas que derrubam em troca dos seus destroços.
A economia informal é rainha. Em qualquer casa pode haver uma pequena indústria artesanal, na cozinha ou em torno da máquina de costura, que emprega a família lhe dá o sustento.
O confronto entre o ethos planejador imprimido pelas sucessivas admnistrações desta cidade e a informalidade das praticas deste país, que a atravessam, é uma questão que muito me intriga.

The History of Words

Before words, each person's thoughts could develop freely without the intervention of strangers’. If someone liked an other, a warm gest...