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Medo do Escuro

O menino entrou no quarto. Deitou-se. Que monstros haveria debaixo da cama? Melhor nem espreitar. Apagaram a luz. O medo aumentou. Agora os monstros podiam sair, andar livres por todo o quarto. Como seriam esses monstros? Fechou os olhos. Ouviu o som de um interruptor. Será que acenderam a luz? Só havia uma maneira de descobrir. Mas agora os monstros estavam tão vivos na cabeça do menino que ele temeu abrir os olhos. Ouviu de novo o som do interruptor. Ganhou coragem para abrir os olhos. A mesma escuridão onde os monstros dançavam. Se calhar apagaram a luz outra vez. Será que foram os monstros? O medo cresceu. Gemeu. Pensou levantar-se e acender ele a luz. Mas uma voz parou-o, “Está tudo bem,” ouviu-se do outro lado da porta, “eu estou aqui.” O menino escondeu-se debaixo do cobertor sem entender porque é que gostava de ouvir aquela voz apesar de ela fazer os bichos crescerem e ficarem mais assustadores. “E não acendas a luz senão eles acordam e ficam muito zangados”. Na manhã seguinte,...

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“So it was I had my first experience with the Accelerator. Practically we had been running about and saying and doing all sorts of things in the space of a second or so of time. (…) But the effect it had upon us was that the whole world had stopped for our convenient inspection.” H.G.Wells, 1901, The New Accelerator in Modern Short Stories, The growth of cities has created bigger opportunities for (and was in many ways led by) the production of new needs. With consequent increase in waste production. Part of this waste is the result of consumption: composed by materials and objects that were destroyed by human use or have decayed over time. But an increasing part of this waste is generated through symbolic processes, i.e., created by the production of consumption, by industries whose main products are new forms of desire. Since innovation is the main drive of economy, commodities are produced for worlds that do not exist yet, worlds which they will help shape. This power of transforma...
Tomara eu deitar-me nesses olhos Como em duas almofadas de vidro Aí onde o mar agita a sensação de chão E o vento faz música ao passar por rochedos rugosos Podemos ainda repousar em lagoas espelhadas

Saliva

Todos os dias Julian Kepler se veste de azul e se entrega ao estranho hábito de deglutir argolas de fumo, ou gotas de orvalho dependendo da saúde dele e do índice nasdaq . Todos os anos por esta altura, reparou ele do alto dos seus trinta e um anos, o tempo aquece e os saltos dos sapatos ganham um centímetro de altura. No fundo do quintal, alguém se esqueceu de sair e ficou acordado junto ao portão contando as pétalas brancas à medida que elas despontavam na árvore das palavras. Sem direcção, os olhos postos nos objectivos repetidos do ser, em aldeias brancas como a neve que nunca lá caiu e nas suas calçadas gastas dos beijos desperdiçados por casais desavindos. Sem medo de desenrolar o corpo pelo caminho, músicos surdos, escritores bloqueados, bêbados abstémios, todos vieram para a grande reunião dos encalhados. O dia começava a demolir a arquitectura de luz construída com tanto trabalho, a desmontar o palco e todos os desmandos que fez no caminho. Sou um átomo, uma mole, uma molécul...

The History of Words

Before words, each person's thoughts could develop freely without the intervention of strangers’. If someone liked an other, a warm gesture would blossom. Fear would make them fight or flee. Or both. The idea of making love with words or of using them to express differences was something people could not even conceive. Before words we were real individuals. People’s thoughts could be influenced by other people’s actions, but only as long as they were co-present. As soon as they went apart they were free from each other's influence. People could teach other people to do things but only by doing them. One could never ‘teach’ a task if one was unable to perform it. Then some genius invented words. Molotov, his name, was the first word he created. It was a small ingenious device, bottle-shaped, that could encapsulate his idea of himself and explode inside other people’s thoughts. Excited with the first trials of the new invention, he started building new similar devices. One day hi...

Love Thy Neighbour II - Amor ao Próximo

«Dá licenss. A voz empurrava o espaço dentro, criava assunto. O que se passa, ó vizinho?, perguntou o do nono. Se passa o problema de morar. Quando se mora, tudo fica perto. Um prédio é uma casa só, inteira de única. Todos no prédio, são noivos do mesmo espaço. Matrimoniados pelo mesmo habitar. Acredite, a vizinhança é um casamento. Veja lá: os quartos adormecem encostados uns aos outros. Os filhos dos vizinhos gritamos-lhes ralhando com os nossos. Nos cheiros provamos a comida alheia antes de ela ser servida lá, na respectiva casa. Somos os dois lados da parede, um e outro, não acha? E porquê esta toda introdução, meu amigo? É que é por causa disso, por causa dessa introdução, que eu estou aqui, vizinho. Então veio a minha casa por causa de uma introdução? Calma, eu explico: esse seu pilão, no nono andar, barulha até lá no chão. É um barulho: até doenta-nos os ouvidos. Tunc, tunc, tunc… É de mais, parece que estão a pilar a cabeça da gente. A nossa paciência, vizinho, está nos últimos...