Wednesday, 15 May 2013

Cavaco poeta

Carneirinhos!
Sem tirar a cabeça do caminho,
Escutem bem as palavras
Deste vosso sábio pastor.
Que foi ele que em tempos derramou
O asfalto onde enterrais os vossos pés:

Fomos todos bem sucedidos.
Avaliados e aprovados.
Em breve chegaremos à terra prometida.
Cumpriremos o nosso destino.
Seremos recompensados por tanto esforço.

Será uma praça
Com forte cheiro a cera derretida
Roque Santeiro estará no meio
Dançando com Blimunda empanturrada
Ao som da flauta interna do Padre Passos
E os 3 levantarão vôo até desaparecerem numa nuvem.

Quem mo disse foi a minha santa mulherzinha
Com quem pratico muito amor e
Partilho uma fé inabalável nas minhas ovelhinhas.

 
Agora vá lá 

Continuem a caminhada
Que senão os senhores da troika ainda vos tiram o canudo.

Wednesday, 1 May 2013

Aprender a Contar



Até agora pudemos dar-nos ao luxo de sermos indivíduos. Tipo, Apareceu-me hoje um indivíduo lá no escritório… Ou tipo, O que me interessa é estar de bem com a minha consciência individual. Pudemos ser indivíduos, cada um com o seu perfil. Cada um mais um comentador politico competindo por atenção na rede, imitando aqueles indivíduos que na televisão e na rádio criticam outros indivíduos sem serem capazes de se entenderem com um grupo para fazer seja o que for.
Até agora, fomos indivíduos, relacionámo-nos singularmente, com sistemas burocráticos, cada uma de nós mais um eu, todas diferentes todas iguais, todas jogando o mesmo jogo de singulares. Vários indivíduos disseram por exemplo, que esta coisa do facebook, apesar de ser uma corporação capitalista avançada, acaba por realizar a utopia da igualdade regulamentada. Todas com as mesmas oportunidades e as mesmas restrições, ninguém extravasando molduras ou quebrando regras. Cada uma com ferramentas iguais a todas as outras. Cada uma com as suas ferramentas. Todas no mesmo plano. Todas conectadas na mesma rede. 
Como se fossem vitais à sobrevivência, objetos muito particulares aparecem em quase todas as vidas privadas: a TV, o micro-ondas, o computador portátil, a chaleira eléctrica, a torradeira, o telefone esperto. Do lado do consumo, como do lado da produção. Formas de trabalho que se homogeneízam à velocidade do cabo ótico, cada uma no seu terminal, cada uma com o seu sistema de gestão de dados ou de comunicação electrónica entre ela e o mundo. Relações de trabalho individualizadas, cada uma com as suas competências, competindo com outras para dar o melhor de si mesma à mão invisível que lhe dará de comer, se for merecido. Uma mão invisível que garante que a luta pela felicidade individual gera uma percentagem de felicidade para os outros indivíduos. A mão invisível às vezes mostra-se, transforma-se. Pode ser o fisco, mas não precisa de ser. Pode ser a mão caridosa. A mão neo-mágica da racionalidade iluminada. Pode ser uma mão que cria empregos. Uma mão que agrega votos. Um mão que conta cabeças numa manifestação.
Até agora demo-nos ao luxo de sermos indivíduos, mas não podemos mais.  Teremos forçosamente de meter as mãos na massa, na massa de outro indivíduo, e amassá-la, prová-la, em vez de a cuspir, descobrir que ingrediente lhe falta. Talvez seja mesmo um pedaço de nós o fermento que a vai fazer crescer, encher o peito de ar. Teremos de cantar em coro, com as nossas vozes desafinadas, letras das quais não saberemos todos os versos, cantar mesmo os versos que emendaríamos se pudéssemos. Vamos precisar de nos partir de formas diferentes, associar-nos de formas que não conhecemos ou que são desconhecidas de todos.
Até agora julgávamo-nos inteiros. Hoje percebemos que os nossos corpos são incompletos. Que é nos outros que está os que lhes falta. Que não podemos ser contados como somatórios de uns e zeros. Que os espaços da cooperação, da colaboração, da união, da discussão, do atrito dos valores, da força coletiva, do amor, não são espaços euclidianos, finitos, somáveis e divisíveis. São espaços abertos, curvos, inter-dimensionais, que multiplicam as contribuições, desmultiplicam os afectos, desafiam a álgebra e a geometria, materializam as possibilidades e procuram o reconhecimento das ausências.
Até agora somávamos e subtraíamos. Uma a um. Fazíamos contas de dividir. Coçávamos a cabeça e desentendíamo-nos com o infinito. Calculávamos os riscos, criávamos algoritmos para apostas, demarcávamos o futuro entre indivíduos vencedores e indivíduos vencidos. O futuro tornou-se medonho. A única forma de o partilhar é imaginando catástrofes. Assim se juntaram todos os indivíduos na utopia colectiva da destruição do mundo. Agora, se queremos deixar de ser os átomos de uma bomba atómica do tamanho do mundo, teremos de reaprender a contar. Agora é hora de contar e recontar histórias, forças, ausências, saberes. De contar com os outros. De contar sem os outros. De descontar certezas. De recuperar variáveis. De amar sem medo. De descolonizar o futuro. De nos desmontarmos como indivíduos. De nos desligarmos de circuitos destruidores. De nos reconectarmos com o chão e com outros ex-indivíduos. É hora de reaprender.

The History of Words

Before words, each person's thoughts could develop freely without the intervention of strangers’. If someone liked an other, a warm gest...