Friday, 26 March 2010

Rio, cidade do atrito.

Lentamente o rugido da cidade a acordar chega à cobertura do décimo primeiro andar na Lapa onde, faz poucas horas, adormeci. Sao nove da manhã e, apesar de hoje estar mais fresco, o calor instala-se no corpo até tornar o sono insuportável. Penso no meu primeiro açai de ontem, e na roda de samba do morro da Conceição junto da pedra do sal, na visita à comunidade da favela do Jacaré e na conversa com um velho desdentado e magro que se sentou na nossa mesa de um boteco na zona portuária e declamava Neruda e Fernando Pessoa. Parece que nada mais falta acontecer. Mas esta cidade parece que guarda surpresas a cada esquina. É um labirinto de cortinas finas que são sempre demasiado frágeis para conter a fricção entre camadas tectónicas que se esfregam sobre uma geografia natural louca produzindo energias brutais. É o que eu ouço aqui em cima: a cidade a deslocar-se lenta e perra, em fricção constante. Desde o acordar.
Quando fui mergulhar no mar de Ipanema, faz dois dias, deparei-me com um exemplo exclamativo dos poderes que tentam defender-se desse atrito. No Largo General Osório, seguindo as indicações de um local para o ponto de ónibus, virei numa rua mais à frente e fui parar num cenário fechado e tenso. Uma rua que terminava num entroncamento em ‘T’ mas que se tinha transformado num beco sem saida pelo estaleiro de uma obra.
No meio ergue-se um esqueleto de um prédio alto e estreito, como muitos que se fazem pela cidade fora. Só que este tem duas particularidades. Primeiro, a sua localização quase perfeita. A Praça General Osório fica na fronteira entre Ipanema e Copacabana, no canto onde a baía abre para o Oceano, mesmo junto à praia do Arpoador. Para além disso é o ultimo ponto do metro, a 15 minutos do centro. A outra particualraidade é que o crescimento deste predio se faz em paralelo muito próximo com as casas de uma favela, num morro quase tão vertical como o prédio que se ergue na sua frente. É o elevador do cantagalo que se está ali a erguer para transportar passageiros no caminho vertical entre o morro e o metro.
A obra desenha uma configuração de ocupação guerreira de fronteira, com os tapumes cortando o tráfego e entrando bem de um lado e do outro da esquina do T, com polícias armados de metralhadoras passeando. Os operários revezam-se para tirar folga do calor abrasador. Alguns moradores da favela olham das suas janelas segurando crianças ao colo, visíveis apenas pela fresta entre prédios. Outros passam por mim na rua com ar zangado. A atmosfera é carregada e tudo isto a menos de 50 metros da praça que eu deixara para trás com as suas lojas de produtos naturais e os seus frequentadores brancos e bem parecidos.
Na volta do ónibus, abri o jornal Globo e o mapa do Rio para descobrir que aquele lugar se chama favela do Pavão-Cantagalo, e é o alvo da sétima e mais recente UPP do RIO de Janeiro. UPP representa Unidade Policial Pacificadora, palavras que, de acordo com diversas pessoas, deve ser pronunciada com muitas aspas. É que o que de facto de passa é a ocupação armada dos territórios muitas vezes acompanhadas de assassinatos. Todos os dias há notícia de um ou mais assassinatos feitos pela policia a traficantes e a seus ajudantes. E o que é mais chocante é a forma como a história é contada pela imprensa e pelas declarações dos próprios policias. Como um método normal de acção. Exactamente o mesmo discurso que aceitou o imperialismo militar americano dos últimos anos. Não há outra forma de lidar com estas forças do mal, por isso nós te entregamos cegamente nas mãos armadas o poder de fazer o que for preciso para as liquidar. Se ninguém reclamou contra o enforcamento publico de Sadam, como vai alguém reclamar das execuções públicas dos traficantes. Ou dos que os próprios executores dizem ser traficantes e seus 'ajudantes'.
A obra em cenário de guerra naquela fronteira tensa e friccionada foi uma imagem forte que guardei dessa manhã. Mas outras sensações foram mais fortes. A daquele mar maravilhoso que se estende ali ao lado sobre uma areia branca e suave, com ondas altas e agitadas e a temperatura perfeita para afogar o calor. E todos os outros produtos maravilhosos desse atrito constante que fui encontrando pelo caminho.
Por mais que alguns se tentem proteger dele, é o atrito entre pessoas e entre diferentes formas de habitar e uma geografia louca que produz a energia maravilhosa e a cultura única desta cidade.

Monday, 1 March 2010

Bodies and media

The circulation of abstract values through global interconnected networks sprawls on the back of the possibility of transporting information independently from its bodily carriers (Bauman, 1998: 14). It is, then, an apparent contradiction that the development in technologies of information and communication has so far contributed to bring people closer to each other. There have never been so many people living in so many and so dense cities as today. Inside most of those cities, financial districts develop and concentrate agents and functions of different markets. We tend to think that the functions of the new economy could be performed at distance. Even if those markets deal with abstract commodities, abstract risks, or serve abstract forms of capital, the actors and the networks through which they connect are real and material, and it takes time and energy to transport through space the people and materials with which they deal.
Moreover, the means of transporting people, objects, information and meaning are more than mere intermediaries. They may be mediators, as they operate tasks of translation, shifting the meaning of messages. They may also be central agents of transformation. With the development of technological artefacts and the growing complexity of the systems they form, we increasingly feel the need to understand how those media act and thus to turn them into objects of our questioning (Latour, 2005).
In the highly awarded 2004 film Estamira, the main character, an impressive woman who has lived a big part of her life in a dump in Rio de Janeiro, rants about the people responsible for the world’s problems and injustices. In her troubled but at times surprisingly lucid mind, the “hypocrite, liar, who throws the rock and hides the hand” is to blame, as we see tons of rubbish (including, amongst many other rotting things, dead human bodies!) being unloaded next to her makeshift house. But even if the human agents are understood as virtual, its effects are all too real and transported through material, if decomposing media. Likewise, the virtual nervous system of transmission of fear, built by the neo conservatives at the opening of the century in the US, used very real media: television. For Brian Massumi, it is exactly the material characteristics of the medium and their effective exploitation that makes the system work. We can add to this list Cetina’s description of the foreign currency market. Even if the flows are informational, the networks through which they travel are composed of material objects that shape and even constitute the market. The computer, Reuter’s informatics’ system, the desk, the trading room are all elements acting decisively over the course of events.
For the trader at the computer terminal as for the American citizen in front of the TV screen, the social reality is deep and liquid, impossible to understand from the partial evidences of an ever changing reality that are unloaded on their framed interface device.

The History of Words

Before words, each person's thoughts could develop freely without the intervention of strangers’. If someone liked an other, a warm gest...