Sunday, 23 September 2012

Os nossos silêncios

Os nossos silêncios não são escuros como os outros. 

Os nossos silêncios têm luzes – sei lá quem as acende
Têm cores – não sei quem as pinta.

Os nossos silêncios são espelhos 
onde as vozes se misturam 
e as palavras se preparam para serem ditas.

E quando a escuridão nos cobre, descobrimo-nos. 

A nossa escuridão não é negra e silenciosa como as outras. 
A nossa escuridão é um desfiladeiro de ecos 
onde os gritos se multiplicam do outro lado.

Tuesday, 31 July 2012

Monday, 16 July 2012

"Estamos em Seca!"

"Estamos em Seca", Cartaz da Thames Waters, Londres Abril de 2012 (foto de Delemere Lafferty)

Danças da Chuva: Austeridade e Abundância Para Todos
(Maio, 2012)
O que se passa com a água em Inglaterra ajuda-me a entender o que significa austeridade, a necessidade que temos dela e algumas das suas contradições.  Tal como nas economias europeias, a chuva continua a cair, mas não chega onde é preciso. Ao contrario das economias europeias, não existem sistemas financeiros com que se conta para regular a necessária redistribuição e racionalização de recursos. Por isso faz-se uso de campanhas e leis que são iguais para todos. Talvez este exemplo nos esteja a mostrar um caminho melhor.
Abril de 2012 foi o Abril mais chuvoso de que há memória meteorológica em Inglaterra ou seja, desde 1910. Em algumas regiões houve dias que mais do que duplicaram os anteriores recordes de pluviosidade. E mesmo assim, grande parte do país tem estado e continua a estar oficialmente em seca. Em muitas regiões, incluindo Londres,  o uso de mangueiras de jardim está e vai continuar proibido, com poucas excepções. Quer a mangueira seja usada para lavar uma bicicleta ou um caro de luxo, o seu uso é ilegal. Em paralelo, há fortes campanhas de sensibilização promovidas pelas empresas que administram as águas.
Tudo isto é para mim muito intrigante. Como é possível uma seca com tanta chuva? Como é possível haver campanhas para redução de consumo promovidas pela companhia que vende a água? Como é possível haver leis de austeridade que são iguais para todos?
 O que se passa é que nos últimos 2 anos houve apenas 4 meses com precipitação acima da média. Em todos os outros meses choveu bem abaixo do normal e necessário para que a água entre na terra. Em Abril do ano passado, por exemplo a precipitação em Londres foi próxima de zero. Ainda mais importante para a água que consumimos em casa são as chuvas de Inverno, que não evaporam facilmente nem são consumidas pelas plantas em crescimento. E essas têm sido raras. Para mais, depois de um inverno muito seco, o solo está menos permeável e os chuveiros de Abril tendem a escoar ou inundar à superfície. Por isso apesar da recuperação de alguns depósitos de chuva, as águas subterrâneas estão ainda a níveis muito baixos. Ainda que o relvado do meu jogo de futebol semanal esteja alagado e, por isso, interdito.
A aparente contradição aumenta a necessidade de campanhas de esclarecimento. Ainda mais porque a maior parte das casas inglesas não tem contador de água. As pessoas pagam um valor fixo que depende da dimensão e de outros critérios relativos à propriedade. Muita gente diz que o pagamento de um preço dependente do consumo traria vantagens para a gestão da água. Mas não poderia isso diminuir em vez de aumentar a conscientização que hoje vai crescendo em torno da necessidade de usar água de forma responsável? Será que os humanos apenas conseguem estabelecer relações racionais entre os seus comportamentos e a sua carteira? Olhando em volta, não vejo outro bem que seja alvo de tantos incentivos a padrões de consumo sustentável como a água. Serão eles menos eficazes do que os habituais mecanismos de mercado?  O bacalhau fresco, por exemplo, que os ingleses consomem em quantidades industriais (no tradicional Fish’n Chips) aumenta de preço, mas a ameaça de extinção continua a aumentar. Não estou a ver um mercado de peixe a colocar um cartaz anunciando as alternativas mais sustentáveis ao peixe mais caro. O mesmo se passa com a gasolina, o gás ou a electricidade. Os preços crescem e o consumo crescente continua a pressionar os recursos naturais. Estudos recentes promovidos nos EUA mostraram que a inserção de um “smiley” amarelo nas contas das casas que tiveram menos consumo do que as dos seus vizinhos têm mais impacto na promoção de poupança de energia do que o aumento do preço. A recompensa simbólica parece ser mais apelativa do que a vantagem monetária. O governo inglês tem falado em introduzir essas experiências. No caso da água, seria necessário haver contadores para isso acontecer. Mas da necessidade de contadores até à ideia de que o preço pode servir para regular os gastos de uma substância tão vital vai um passo maior do que geralmente se assume.
Se temos de ser austeros com a água, o dinheiro que cada um pode pagar não parece ter um papel muito relevante. É uma questão de justiça e de senso comum. Mas é também uma questão de racionalidade. Se a água tem um preço por quantidade há alguém a vendê-la. Se alguém a vende, há um agente interessado em aumentar o consumo.
A confusão instala-se quando substituímos a necessária austeridade na distribuição e consumo de recursos com a distribuição de dinheiro, salários e custos. Pagar subsídios de desemprego não é desperdício. Já sujar o rio para depois gastar recursos a limpá-lo, é. Austeridade não é deixar de investir em cultura; isso é suicídio, pois a cultura é o que nos ajuda a entender a relação entre a nossa torneira e o rio. Austeridade é captar a água da chuva para lavar o carro e a água do banho para puxar o autoclismo.  Poupar nas necessário reparações de fugas no sistema de distribuição de água não é austeridade – é desperdício. Na Europa ainda temos água em abundância. Mas não podemos continuar a usá-la acima das nossas possibilidades colectivas. Por isso se estão a gerar novos padrões de consumo. E não é a carteira que nos vai fazer aderir a eles. É a cultura.

Monday, 27 February 2012

É tão bom ser salvo que me apetece passar a vida a naufragar

Robinson Éosurc, o Náufrago Frágil

Aos poucos acordado pelo sol a bater compassadamente na cabeça deitada na areia, entre o vai e o vem do sargaço e dos outros presentes que as ondas vêm oferecer à praia...

Antes dos olhos e dos ouvidos, abre-se uma janela na memória. O náufrago frágil recorda a sua pose de herói distraído que uma onda derrubou pelas costas. Agora toda a força que lhe resta concentra-se na mão fechada sobre um destroço daquilo a que chamava barco. Havia mais ar no peito do que na vela, mais peso na voz do que na âncora...

Às janelas entreabertas dos sentidos chega o som de centenas de vozes amalgamadas, envolvido na cadência do marulho salgado.

O náufrago frágil abre os olhos...

“voguei à deriva – no tempo e no espaço – sem noites nem dias, por não sei quantos oceanos de silêncio, pra vir encalhar nesta ilha apinhada de gente....”

O náufrago frágil tenta compor a sua aparência de herói. Ergue a cabeça, empurra o corpo para fora do chão, passa a mão pela cara descobrindo-a de areia (mas não da barba de 100 dias) deixa os olhos desembrulharem-se da rebentação de espuma, algas e destroços, e espera que um caderno coberto com a sua própria caligrafia desfocada abrace os seus pés com as suas páginas. Começa a ler:

“Se o Mar se pudesse prolongar, estender, desdobrar, teria o seu nome... os nossos silêncios não são escuros como os outros. Têm luzes – sei lá quem as acende..... têm cores – não sei quem as pinta. Os nossos silêncios são espelhos onde as nossas vozes se misturam e as palavras se preparam para serem ditas. E quando a escuridão nos cobre, descobrimo-nos. A nossa escuridão não é negra e silenciosa como as outras. A nossa escuridão é um desfiladeiro de ecos onde os gritos se multiplicam do outro lado...”

Fecha o caderno, deita-o sobre a areia quente e senta-se ao seu lado com uma vontade incontrolável de escrever. A sua pose de herói impede-o de pedir qualquer coisa a quem quer que seja. Olha em volta (para ver se por acaso o “Sexta-Feira” não estará entre as dezenas de jogadores de raquetes, vólei e futebol que enchem a praia à sua volta. A verdade é que mesmo que o visse não o reconheceria. A única forma de reconhecer “Sexta-Feira” seria ele aparecer como o único habitante humano da ilha e mesmo assim ele não faz ideia se hoje é ou não sexta-feira, que foi o dia em que Robinson Crusoe encontrou “Sexta-Feira”, podia até dar-se o caso de o único habitante da ilha ser uma mulher e então o mais provável seria ela chamar-se Dona Conceição. Mas nada disto tem muita pertinência uma vez que a ilha está cheia de gente e o náufrago frágil apenas quer arranjar coragem para pedir uma caneta a alguém, tal é a sua vontade de escrever, além de que os seus pensamentos andam assim porque tinha estado a ler Saramago nos últimos dias de viagem na jangada de casca de noz) e começa a escrever mentalmente:

“ tudo tem pelo menos dois lados. A casca de noz tem o côncavo e o convexo, os nós têm duas pontas – por mais emaranhadas que estejam podem sempre separar-se, ou pelo menos cortar-se. Nós tem pelo menos duas pessoas, por muito unidas que sejam são os vários lados de um grupo, sendo cada um deles composto por inúmeras facetas. Uma relação também tem vários lados. Eu e o meu barquinho, por exemplo. Levou-me a vários sítios. Mesmo quando não me levou lado nenhum deu-me muito prazer o simples fato de andar sobre as aguas graças a ele, de me juntar ao balanço eterno do mar e, por momentos, fazer parte dele. Eu não sei muito destas coisas mas em qualquer relação também há pelo menos dois lados. Se dá muito prazer, tem também de dar muita dor. Como não pode estar sempre a dar prazer, nos intervalos não pode simplesmente ficar à espera. Tem de doer. Não vale a pena tentar evitar a dor. Não magoar é negar o amor. Tentar ser amigo quando se ama é o mesmo que querer que à maré cheia suceda a maré semi-cheia sem haver maré vaza, ou que à lua cheia suceda o quarto crescente, ou que ao dia suceda a manhã. Se calhar é impossível. Talvez tenha sido esse o erro. Ou talvez seja apenas o delírio de um náufrago a elaborar os primeiros raciocínios sobre as causas do acidente. Quais terão sido as primeiras explicações avançadas pelos sobreviventes do Titanic? Terão sido muito diferentes do que se sabe hoje?”

Entre os destroços que entretanto foram dando à praia motivando a curiosidade limitada de alguns dos elementos da multidão de habitantes daquela ilha deserta, algumas cordas com complicadíssimos nós de marinheiro, com algumas partes emaranhadas, embrulham-se no sargaço e trazem alguns metros de fita de filme pelo meio. Altamente inflamável.

Pela primeira vez na sua vida o frágil náufrago solitário via-se perante a intrigante e misteriosa tarefa de desatar nós. Ao mesmo tempo que rebobinava o filme e retirava o sargaço que lhe atrapalhava a visão, resolveu lançar mãos ao desafio. Olhando frente, ergueu-se num salto e para a confusão à sua escreveu na areia alisada pela maré vaza, criando um espaço livre junto à água que se podia ver perfeitamente do céu:

“É TÃO BOM SER SALVO QUE ME APETECE PASSAR A VIDA A NAUFRAGAR”


Friday, 20 January 2012

Detropia - Still Detroit



www.detropia.com

Monday, 16 January 2012

this is the man

Se tivesse tempo e leitores traduzia:

Don't blame the ratings agencies for the eurozone turmoil

Europe and the eurozone are strangling themselves with a toxic mixture of austerity and a structurally flawed financial system

Tuesday, 10 January 2012

A espinha

É flora em cada

Esquina do meu corpo

Nascitura repentina

À flor da pele.


É espinho

De uma rosa

Ciosa da sua beleza

Assim sempre ansiosa

Atenta desde o rebento

Aos apêndices

Pontiagudos.


Estranho acontecimento

O aparecimento da espinha

Que aflora o corpo

Com ar de anúncio

De circulações poluentes

Lá paro os lados das entranhas.


Mais que uma nódoa

Em fino pano

A curta elevação

Por soar a outro ser

Representa

Maldição.


Mais do que um monte

De lixo orgânico

A espinha

Contem todas as coincidências

Que a elevam a estátua

Monumento de um castigo

Aplicado

No próprio nexo causal que a erigiu.


E a espinha assim qualificada

Ganha dimensão desproporcionada

Proporcionar-lhe-ei então

Estadia prolongada

Para que

Protegida

Não seja forçada

A reprodução incontida

Que torne inabitável

A pele que é chão

E ventre

Desta geração

The History of Words

Before words, each person's thoughts could develop freely without the intervention of strangers’. If someone liked an other, a warm gest...